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quinta-feira, 30 de maio de 2013

Arte Cultura da Alma: Meus Textos

Arte Cultura da Alma: Meus Textos: Capítulo 2

Um dia antes da viagem começar, eu estava em uma das salas da antiga casa feita para o descanso e a leitura. Era cheia de grandes e confortáveis poltronas, com uma grade grande janela que nos dava uma bela e assustadora vista do mar, e de suas ondas quebrando nas pedras e rochas lá em baixo. Estavam conosco na sala alguns tripulantes conversando entre si, enquanto um pequeno garoto olhava-os temeroso e desconfiado, havia também uma mulher grávida nos últimos meses de gestação que se distraída com uma revista alisando a volumosa barriga.
Estávamos perfeitamente tranquilos nos distraindo com bobagens quando o capitão entrou na sala com dois homens ao seu lado. Imediatamente todos ficaram paralisados observando o homem obscuro que acabara de entrar. Sempre que eu olhava aquele rosto sério e endurecido e para aqueles olhos escuros, eu sempre procurava uma alma sem saber se aquele homem tinha realmente uma. Em sua presença todos os corações da sala pararam de bater por alguns instantes depois recomeçaram a bater fortemente como se para tornar o alvo mais claro, como uma isca.
Assim que percebi esses detalhes um sentimento pairou sobre todos na sala, não era medo, nem respeito pelo capitão, comandante do navio que contratamos, nem ao menos a tranquilidade que sentimos há poucos minutos, era um sentimento puro, pesado e muito estranho.
Então como uma nuvem invisível de fumaça a aceitação inundou a sala, eu não sabia de onde nem por que estava sentindo aquilo, mais era forte e sufocava. A aceitação de algo que estava prestes a acontecer, ardia como um chicote em meu peito esmagando minha vontade, eu queria gritar e lutar contra aquilo, não sabia bem o porque mais eu senti medo, e com esse medo senti que precisava de alguma forma me proteger, e ao mesmo tempo pensei em minha família, o rosto de cada um deles veio a mim como um sopro de desespero, vi a porta da sala aberta e queria trancá-la para que nenhum deles chegasse naquele momento, eu não queria que eles tivessem que participar daquilo, seja lá o que  fosse. A outra parte de uma mente que não estava voltada para o que eu sentia, percebeu que uma fila se formava na sala e ao mesmo tempo algumas pessoas pareciam diferentes, perdendo a aparência humana, ficando translúcidos como fantasmas. Pela minha visão periférica pude ver –não por vontade própria, pois eu realmente não queria olhar- exatamente por qual motivo cada um deles havia morrido, era medonho...
Ver aqueles rostos deformados pelo inchaço como se tivessem passado anos no fundo do mar, com as roupas pingando água salgada. Outros com cortes e ferimentos abertos e cheios de sangue que significavam eras de tortura. Meu Deus, o que eu estava fazendo ali no meio daquelas pessoas?!
Enquanto isso a fila andava em direção a uma janela, e contra toda lógica meus pés seguiam a mesma direção eu estava pálida e gélida de medo não conseguia encontrar em mim o desejo fervoroso que queria sentir para gritar, aliás, atmosfera da sala estava assim, cheia de gritos de horror silênciosos, vistos somente nos olhos de cada pessoa viva ou fantasma que seguia para a janela, mas ao invés disso a pura aceitação era a única coisa que podíamos sentir. Quando o primeiro homem fantasma chegou à janela o capitão e os dois homens inescrupulosamente sorriam e falavam para que todos ouvissem qual fora o motivo de sua morte, como se para eles aquilo não passasse de uma piada. Quando chegou a janela o homem completamente aterrorizado olhou para nós e o capitão, e então como se tivesse aceitado novamente um destino que ninguém conhecia, ele se jogou.
Quando cheguei à janela pude ver a tempestade, olhei para baixo esperando ver o chão de pedras e me deparei com um oceano cinza, suas ondas baixas tinham som de lamento, do medo puro e silencioso, e sua água tinha cheiro de aceitação, e foi ficando mais forte enquanto eu me aproximava dela, - enquanto eu fazia comparações ou tentava entender o que acontecia os meus pés me levaram para a janela e para fora dela me jogando no mar...


Capítulo 3

Enquanto eu fazia comparações ou tentava entender o que acontecia os meus pés me levaram para a janela e para fora dela me jogando no mar - enquanto eu caía na água a lembrança de minha família veio novamente como a última brisa de minha vida... Aqueles que eu amava, eu não poderia mais ficar com eles, senti-los, abraçá-los, pois minha vida injustamente e sem explicações estava chegando ao fim. A água tinha gosto de perda, ela infiltrou em meu corpo o sugando e o transformando em algo leve, pálido e vazio, era como se eu não tivesse mais a proteção de meu corpo, e eu na verdade não tinha...
Eu achava que depois da morte não sentiria mais nada, mais o sentimento de perda me esmagava, pesava de uma forma que era quase tangível, principalmente quando eu lembrava de minha família, dos que eu amava, quando eu pensava nas muitas coisas que queria ter tido, nos sonhos que deixei em branco, nos planos...
Não sei quanto tempo passei pensando na morte, alias o tempo parecia algo completamente desconectado de mim, eu não conseguia vê-lo passar.
Até que o massacre e a tortura aconteceram pela primeira vez. Eu ainda estava nas pedras onde havia caído, com as ondas do mar batendo em meus pés, enquanto pensava e tentava encontrar o motivo de tudo aquilo, fui puxada, como se um buraco negro se abrisse de forma invisível e me sugasse para dentro dele, me levando para uma dimensão de dor e sofrimento. Este foi o primeiro momento depois de minha morte em que pude me sentir. Sentir meu corpo que pesava pela gravidade, e que estava agitado com a energia ao seu redor. Era uma floresta, seu chão era coberto por uma grama verde suja, em alguns pontos coberto por uma lama negra e em outros avermelhada, com árvores de um verde vivo, mas que estavam cobertas por uma planta que parecia uma erva daninha que se enrolava e embaraçava nos galhos deixando a aparência de uma grande teia de aranha marrom-acinzentado sobre as folhas.
Estavam todos ali, o capitão, seus tripulantes, e todas as novas almas perdidas que estiveram na sala, confusas olhando de um lado pro outro.
Então o capitão se levantou de sua glamorosa cadeira e com o mesmo sorriso cruel e sarcástico com o qual nos fez pular para a morte, ele abriu os braços como se tivesse nos acolhendo e começou o seu breve discurso: “Bem vindos! Todos os mortos – ou nem tanto assim. Bom... sem mais explicações. Que comece a iniciação.” Ditas essas palavras me senti como uma marionete, presa por cordões condenada a viver e aceitar tudo que fora designado a mim por aquele homem sem alma, ou por uma força maior ao redor dele. Todos os tripulantes eram homens feridos com roupas rasgadas longe de parecer com o belo uniforme que vimos na casa no ultimo dia antes da viagem. Somente nós os “iniciados”- como o capitão havia nos chamado- é que ainda estávamos com nossas roupas em perfeita ordem pingando água salgada.
Então o ritual começou. Os tripulantes sorriam, não era apenas uma risada, eram gargalhadas loucas, misturadas com gritos aterrorizantes. Então uma dor escaldante nos tomou e todos nós caímos sem defesas, sem ter como fugir. Presos, como marionetes, meu corpo estava cheio de espinhos que apertavam e se enrolavam em mim como uma planta viva, a dor aumentava, e depois ainda se duplicou, ficando cada vez mais forte, eu rolava no chão, tudo que eu sentia era dor, tudo que eu pensava era na dor, tudo que eu olhava era dor, todos estavam sofrendo e gritando. A dor e o aperto dos espinhos ficaram insuportáveis e foi assim que tudo escureceu.
Meu ser era só lembrança como pensamentos vagos de um sonho completamente real.
Lembranças: o livro, o capitão, a fila, a janela... e o farol não me lembrava dele, mas sim, ao lado da casa havia um farol um ponto seguro para os navegantes... Mais lembranças: água salgada, ondas baixadas com cheiro de aceitação, a perda, o vazio, e finalmente a dor, a pura dor e enfim a escuridão...
Quando abri os olhos, estava em um quarto e a cama balançava lentamente, olhei pela janela, e o sol forte não me tocou, eu não conseguia senti-lo, e nem ao meu corpo, eu era novamente um ser vazio e cheio de sentimentos e pensamentos movidos pela perda e cheio de aceitação. As ondas lá fora se espalhavam por toda parte agitadas e inofensivas. Estávamos num navio. A viagem havia começado...
Continua. Aguarde as próximas publicações...

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