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domingo, 9 de junho de 2013

Arte Cultura da Alma: Meus Textos

Arte Cultura da Alma: Meus Textos:Capitulo 4

Sai do quarto às pressas para saber onde estava e se as cenas em minha cabeça eram reais. Para minha surpresa todos aqueles que contrataram a viagem estavam ali, inclusive os iniciados vagavam pelo navio de um lado pro outro como em qualquer dia normal. Ao observar, percebi que eles caminhavam, mas seus pés não tocavam o chão de madeira do convés. Era como se tivesse um tipo de energia em baixo deles que os mantinha conectados da gravidade, mas sem se deixar prender por ela. Foi então que olhei para meus pés, vi que eles também flutuavam milímetros acima do chão. Então as cenas em minha cabeça eram reais, olhando para o meu reflexo nas ondas procurei as marcas deixadas pelo ritual, mas não havia nada só uma pequena dor que não tinha origem, mas meu corpo estava translúcido e pálido. Eu não conseguia entender... Fiquei pasma ao perceber que ninguém além das pessoas que estavam na sala, percebia o que estava acontecendo, pois andavam entre nós como se nada tivesse acontecendo. Como se nosso corpo não estivesse translúcido, como se pudessem sentir nossa pele quando nos tocavam. Mas porque tudo isso parecia vazio? Por que nada daquilo me parecia familiar como já fora um dia? Eu estava enlouquecendo! Não aguentava mais aquela confusão de sentimentos que não faziam sentido algum eu não conseguia juntar as imagens em minha memória com o que estava vendo bem ali na minha frente. Vi um dos tripulantes que passava por nós tranquilamente com um olhar sombrio e vitorioso. A fúria que se apoderou de mim era surreal, eu queria arranha-lo e esmaga-lo até que me explicasse o que estava acontecendo, mas quando tentei dar um passo em sua direção não consegui me mover, um peso enorme se apoderou de mim e fiquei ali olhando pra baixo incapaz de fazer alguma coisa. Tive que suportar a humilhação de aceitar minha condição fraca quando ele elevou o queixo e me olhou de cima com completo desprezo antes de virar as costar e ir embora. Fiquei ali presa até que minha raiva foi desaparecendo. Teve um momento – pode-se dizer assim, pois eu não sabia se o tempo havia passado para os outros que não estavam na sala-, um momento em que vi meus pais pela primeira vez depois de tudo o que tinha acontecido, esperava que eles passassem por mim sem me ver, mas eles pararam em minha frente como se nada tivesse mudado aos olhos deles e perguntaram sobre a minha irmã, desejei que nada tivesse acontecido com ela, pois na hora que eles descobrissem que haviam perdido uma filha a dor já seria suficiente, mas alguns minutos depois ela chegou dizendo que havia se distraído na sala de jogos e perdeu o horário, o meu alívio ao ouvir sua explicação banal foi maior que o do meus pais, que não tinham ideia do perigo que os cercava. E então fui puxada novamente para o meio daquela tortura, e as cenas de horror recomeçaram, parecia um tipo de ritual, ou talvez um show de horrores, eu não sabia como chegava ao local da tortura quando ela começava mais eu sempre estava lá... Era novamente a floresta de grama verde suja e cheia de arvores, mas algumas coisas haviam mudado dessa vez aparelhos de tortura surgiam de todos os lugares. Forcas desciam do alto das arvores, guilhotinas espalhadas pela grama subiam e desciam suas laminas pedindo por uma cabeça. Havia também uma hélice de ferro afiada que se balançava de um lodo pro outro como se ainda estivesse presa na fronte de um avião invisível designado pra uma terrível missão, em meio a tantos outros objetos de tortura que preferi não ver. Então os gritos e gargalhadas começaram, alguns tentaram fugir, mas foram pegos pela nuvem invisível de aceitação que pesava em nossos ombros, ficamos todos no lugar enquanto nossa vontade novamente desaparecia. Lagrimas caíram de meus olhas e pela primeira vez depois de minha morte eu chorei deixando minha visão embaçada, a única coisa que pude ver foi o olhar assustado e familiar do pequeno garoto que vi na sala antes de pular para a morte, naquele dia ele olhou para o capitão desconfiado e temeroso, e agora seus olhos demonstravam que ele sabia que a morte estava chegando mais uma vez. Fomos levantados do chão por um galho de arvore que se enrolou em nossa cintura nos deixando frente a frente com a hélice de laminas afiadas que brilhavam assustadoramente no sol. E a hélice foi ligada, girava rapidamente triturando os galhos em seu caminho vindo em nossa direção. Fechei os olhos cheios de lagrimas e me abracei pra resistir a dor insuportável, me prendendo unicamente na imagem de meus pais e minha irmã em minha memória. Ouvi os gritos de dor do garoto assustado e depois o silêncio. O som dos giros da hélice foi ficando mais alto, e então a escuridão me tomou. Quando acordei, meu ser era novamente tomado pelas memórias que agora eu sabia que eram reais e pelas reflexões, eu olhava as ondas e meus pensamentos voavam... As primeiras conclusões que tirei depois de cair na água e me sentir daquela forma, eram de morte, as provas que eu tinha eram mais que suficientes, de outra forma como eu poderia passar por aquela tortura e morrer tantas vezes e ainda continuar sendo vista por minha família, Será que eu havia me tornado um fantasma e minha alma estava condenada a vagar entre o céu e a terra sempre passando por aquela tortura? Será que eu tinha opções como Morrer ou Voltar à vida? Eu via as pessoas sendo cortadas, enforcadas, via rostos sofrendo transformados pela dor, feridos, cansados e infelizmente cheios de aceitação... Fiquei aterrorizada, aquele lugar não nos deixava morrer em paz, ficávamos presos ali às vezes sentindo dores que não tinham origem, mas que eram fortes como ferimentos reais, passando por toda aquela tortura interminável como se tivéssemos cometido um pecado muito grande e estávamos no inferno pagando por isso. Como desejei morrer, ter uma morte tranquila e ir de encontro a Deus, como desejei que Ele me pegasse em seus braços e me consolasse, mas aquele lugar não deixava, eu precisava me libertar dali de toda aquela tortura. E talvez eu não tivesse mais nada a perder, todos os meus sonhos foram pisoteados, agora eu tinha outro sonho, recuperar um pouco de vida que ainda restava dentro de mim,- se é que ela ainda existia- em meio aos devaneios dos meus pensamentos percebi pessoas ao meu lado e uma delas me chamou a atenção , era a mulher grávida que vi na sala antes de pular para a morte ela estava com as mãos sob a barriga e acariciava a criança em seu seio com muito carinho, e de uma forma plenamente terna ela olhava a barriga e fazia suas declarações de amor ao bebê, ela dizia que quando ele chegasse tudo ficaria bem.. Ela falava com tanta certeza com tanto amor e carinho que não restava dúvidas em sua esperança de que aquele terror pelo qual ela passava acabaria...
       Continua. Aguarde as próximas publicações...

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