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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Arte Cultura da Alma: Meus Textos

Arte Cultura da Alma: Meus Textos: Capitulo 5
 Dias já se passaram e a viagem continua, já perdi a conta de quantas vezes fui torturada naquelas sessões de horror, a dor e o medo fazem parte de mim agora, até o meu corpo físico já se acostumou com isso e com o tempo se fortaleceu. Porém uma cena ainda me tira lagrimas, a imagem da mulher grávida que estava cheia de esperança por saber que tinha um motivo pelo qual lutar, eu a invejava. Tenho notado em seu rosto um brilho suave que aumenta dia após dia, deixando-a cada vez mais humana. O que me deixa ainda mais triste, pois continuo vagando pelo navio como o fantasma cinza que me tornei. Mas Aquela cena me desesperou de uma forma que me tirou o chão, eu gritava por dentro, num guincho de horror que me arrancaria da consciência e me levaria à insanidade completa eu não conseguia achar um motivo para ter esperanças, nem mesmo em minha família, pois eles ficariam bem sem mim, eu não tinha filhos nem ninguém que dependesse de mim para viver, eu não tinha nada, só os meus pensamentos e reflexões vazias que não me levavam a lugar algum, meu corpo doía de uma forma tão desesperada por solução, que eu poderia rasgar meu peito e arrancar tudo que ele protegia, em meio a gritos de pavor só para sair daquele inferno pessoal que me consumia... Que escuridão é essa? Onde estou? Quem sou eu? Oh meu deus não me lembro de minha vida estou completamente perdido, sem saber quem sou. As lembranças de um homem, as suas memórias e principalmente seu nome são a sua honra e sua dignidade e agora não tenho nada disso, pelo menos sobraram os meus princípios. Eu estava zonzo, cansado. Abri os olhos me perguntando que lugar era aquele. Uma floresta negra pairava ao meu redor, meu corpo doía como se tivesse sido esmagado me levantei e caminhei um longo tempo pela escuridão. Até avistar uma luz que brilhava ao longe, percebi que também havia água por ali eu já podia ouvir o som das ondas. Andei noite adentro, até me deparar com um céu limpo e sem nuvens que ainda clareava e um oceano aberto a minha frente. Pude ver o farol do outro lado da praia sua luz ainda piscava porem a casa permanecia escura e silenciosa será que havia alguém morando ali? Eu estou faminto, morrendo de fome, não sei a quanto tempo estive desmaiado? Eu estava exausto, precisava descansar um pouco então resolvi voltar para o conforto da grama em baixo das arvores e tirar um cochilo antes de enfrentar o desconhecido naquela casa do farol, que me pareceu sombrio e perigoso mesmo na luz do sol. Me deitei sobre a sombra de uma arvore e me deixei levar pelo cansaço... “uma pequena menina chorava nas sombras, me levantei e tentei encontra-la, ela estava em pé na praia olhando pro mar. Tentei alcança-la, porem quanto mais eu andava em sua direção, mais ela me parecia distante. Eu quase podia ouvir seus pensamentos através das lagrimas que caiam de seu rosto, e das caretas de dor e horror que ela fazia. Suas mãos arranhavam seu peito como se quisesse arrancar o próprio coração para não mais sofrer. Nesse momento foi como se algo me puxasse e me levasse até ela, tentei segurar suas mãos mas seu corpo de fantasma não permitia. A pequena menina cinza estava com os pés descalços flutuando acima do chão e as ondas geladas banhavam sua pele, suas roupas estavam em farrapos e pareciam molhadas, tentei inutilmente toca-la, tira-la dali, mas em sua tristeza e desespero ela mal percebia. Gostaria de abraça-la mas seu corpo de fantasma não permitia, então disse-lhe algumas palavras na esperança de que ela me ouvisse: - Não tenha medo, não chore pequena menina, você não esta mais sozinha e não a deixarei sofrer. Quando ela abriu os olhos, não pareceu ter me ouvido, mas ela levantou o rosto e sorriu. Um sorriso débil e desesperado de menina, e saiu correndo em direção ao mar e em seu desespero gritava: - Um motivo para lutar uma esperança para viver! É tudo o que eu peço. Tentei ir atrás dela e impedi-la, mas ao entrar nas ondas geladas do mar, fui puxado de volta pra longe dela e com o frio das ondas acordei.” Acordei procurando a bela menina cinza, mas ela não estava lá, tudo não passava de um sonho. Um sonho tão real, meus pés estavam gelados como se eu tivesse realmente entrado no mar. Quem era aquela pequena menina fantasma? Qual seria o motivo de tanto sofrimento? Contra o que ela precisava lutar? Lutar pra não sofrer não seria motivo o bastante? Mesmo sabendo que tudo aquilo fora um sonho eu não conseguia parar de me perguntar onde ela estaria agora. E por que ao lembrar de seu rosto, cenas e palavras enchem a minha mente? Algumas lembranças embaçadas e assustadoras, brinquedos espalhados no chão onde brincava, uma musica alta tocando, pessoas olhando e sorrindo, um banho de piscina, objetos afiados em uma floresta belamente verde, gritos pessoas conversando, muitos sorrisos... Eram minhas lembranças ainda misturadas, mas eram minhas, graças àquele pequeno rosto banhado de lagrimas comecei a me lembrar de minha antiga vida. Eu não era mais um homem tão desonrado afinal, poderia aos poucos me lembrar. Eu precisava vê-la de novo, precisava dizer que graças a ela eu sabia o meu nome, e agora tinha imagens e lembranças de minha vida que eu poderia compartilhar, e isso era muito importante pra mim. Meu nome é Ezequiel, e eu prometo que vou encontra-la e protegê-la. Eu preciso dela aqui viva, preciso ver seu sorriso de novo e dessa vez poder toca-la, ouvir sua voz e fazer com que ela me ouça dizer para que se mantenha forte, que confie em mim. E então pedirei sua ajuda. Quando estava quase surtando, me calei e não senti mais nada... Eu sabia que estava desesperada, mais não conseguia sentir, então, sorri debilmente percebendo o que acontecia... A aceitação era como uma anestesia que nos impulsionava a passar por tudo aquilo –tornava mais suportável- era como um escudo, um véu perverso de defesa que pairava sobre as nossas cabeças constantemente, e de certa forma nos sentíamos gratos por isso, e nos calávamos em nossa gratidão não contando a ninguém o que acontecia... Eu não conseguia mais ficar ali olhando desejando estar naquela areia da praia que começava a aparecer no horizonte com o nascer do sol, enquanto o navio vagava calmamente sobre as ondas, se pressa de chegar. Meu desespero voltou aos poucos e até que abrindo meus olhos cheios de lagrimas sorrindo desesperadamente dessa incrível piada de mau gosto que minha vida havia se tornado. Gritei para o mar aberto pedindo um motivo pelo qual lutar uma esperança para viver. Então corri para a lateral do navio para me jogar no mar em um ultimo ato de desespero, mas meu corpo não tinha mais gravidade se eu quisesse poderia até caminhar por cima das ondas. Porem isso não me distraiu fechei os olhos e lentamente fui me afundando nas ondas do mar até que água chegasse aos meus ombros , e quando estava quase submersa sentindo o cheiro salgado ao meu redor, uma onda banhou meu rosto me trazendo um pensamento. Um nome Ezequiel.

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